Muitos filmes baseados em histórias em quadrinhos foram e serão lançados recentemente. Três filmes do Homem de Ferro, três do Capitão América, dois de Os Vingadores, sem contar os vários filmes do Batman e Homem Aranha, por exemplo. O que esses filmes têm em comum? Nenhuma personagem feminina como destaque. O próximo filme de uma super-heroína será Capitã Marvel, com estreia prevista para fevereiro de 2019. Confira o calendário aqui.

Um e-mail vazado revelou que a Marvel não apostava em filmes com protagonistas femininas devido ao fracasso de Elektra e Mulher-Gato. Porém, há vários fatores que fazem um filme não fazer sucesso, como o roteiro e o investimento destinado a ele. Porém, existem outras produções com mulheres fortes desempenhando papéis principais que deram certo e fazem sucesso hoje, como Mad Max, Jogos Vorazes, Divergente, Jessica Jones e Supergirl. Portanto, o problema do fracasso de um filme não é por ser estrelado por uma mulher ou por um homem, somente.

Os filmes e HQs de super-heróis acabam fazendo mais sucesso pois desde os primeiros anos dos quadrinhos, não se investia em personagens femininas e quando isso acontecia, era (e continua sendo) de maneira hipersexualizada. As roupas das heroínas são muito menores que a dos heróis e elas sempre estão representadas em poses e posições mirabolantes e irreais. Um guia para desenhar mulheres nos quadrinhos mostra como é absurda a representação. Em 2014, a Marvel pediu desculpas pelo desenho da capa da Mulher Aranha feito por Milo Manara, que é conhecido pela arte erótica que produz. Mulheres tentaram recriar essas poses para mostrar o quanto são irreais.

j2

Sempre investindo mais em personagens masculinos e representando as mulheres dessa forma, a indústria dos filmes e quadrinhos presume que o público dessas produções são, em maioria, homens (e héteros). Mas, uma pesquisa baseada em dados do Facebook mostra que praticamente metade desse público é composto por mulheres. Portanto, é essencial que as mulheres se sintam representadas nas histórias e que as produções sejam feitas para elas também, com temas pertinentes ao universo feminino e sem que o aspecto físico seja o primeiro aspecto pensado.

Por isso a importância de séries/filmes/HQs com mulheres fortes, que fujam do habitual e promovam reflexões pertinentes. Aí entra a relevância da série Jessica Jones, produzida pela parceria Netflix/Marvel. Além de sair do lugar comum de produções de super-heróis já conhecidas, Jessica Jones consegue abordar, na ficção, questões reais.

Jessica não usa uniformes e capas nem tem vida de super-heroína. A investigadora particular ganhou seus poderes depois de um acidente de carro no qual perdeu a família. Durante alguns meses, Jessica ficou sob o controle de Kilgrave, que é obcecado por ela e tem o poder de controlar mentes. Ele apenas diz e a pessoa faz, sem controle de sua ação. Aline Valek escreveu sobre o êxito da série e comentou que “Kilgrave é assustador porque é real. Tirando a parte do controle mental, claro (e o estranho gosto por ternos roxos), não é difícil achar caras com esse nível de obsessão por uma mulher, capazes de persegui-las, ameaçá-las e torturá-las”, disse.

j
Jessica Jones e Kilgrave

A série é escrita por uma mulher e representa outras personagens fortes, como a apresentadora bem sucedida Patricia Walker e a advogada Jeri Hogarth, que é lésbica. Jeri foi adaptada para a série, pois nos quadrinhos era Jeryn, um homem.

Jessica Jones é uma série que conta a história de uma mulher que busca retomar a vida após um relacionamento abusivo, uma mulher que, apesar de ter outro relacionamento saudável depois desse, resolve seus problemas sozinha e não precisa de um super-herói para salvá-la. Uma série que fala sobre abuso e controle, sem sexualização da super-heroína, com valorização das mulheres, problematização de questões reais e mostrando às mulheres que elas são fortes e não devem se calar.

Por: Carolina Lopes

Anúncios