Chegou ao fim no domingo passado uma das séries televisivas de maior sucesso na TV aberta estadunidense. Com a audiência do canal CBS em alta em pleno domingo, como de costume há sete anos, The Good Wife acaba como começou: Alicia, a boa esposa, mantendo-se ao lado do marido diante de todos os escândalos contra ele.

A premissa é essa: uma dona de casa do subúrbio recomeçando na agitada cidade de Chicago a vida profissional que abdicou em nome da família e da carreira política do marido quando este foi preso, acusado de corrupção e envolvimento com prostitutas. Depois de quinze anos afastada da advocacia, a protagonista interpretada por Julianna Margulies consegue uma vaga no escritório de um antigo namorado de faculdade e a história começa.

Somos então apresentados a dois ambientes hostis e predominantemente masculinos, o do direito e da política, e neles conhecemos os personagens complexos que completam a trama. Mas as mulheres, aqui cabe dizer, são quem dão o tom. Cada uma à sua maneira, têm em comum um aspecto “empoderado” ainda difícil de vermos na televisão. Não fosse o caso de ser a protagonista, talvez Alicia nem se destacasse tanto.

Sua chefe sempre priorizou sucesso profissional, a sogra é um exemplo de dona de casa à moda antiga, a mãe uma hedonista e a filha adolescente bastante religiosa. Dentre as advogadas que entram e saem na história, evidenciam-se duas das mais competentes: uma com certo grau de transtorno mental e outra vítima bem sucedida da famigerada meritocracia. Diversas em quantidade e qualidade, seus discursos aparecem sempre lúcidos. Sem serem demonizadas ou endeusadas, são retratadas apenas como humanas, com defeitos e falhas de caráter à mostra muitas vezes.

The Good Wife trouxe à TV aberta um drama escrito e executado com maestria. Não à toa tem no currículo três Emmys e um Globo de Ouro. Com um caso novo a cada episódio, ao longo de suas temporadas abordou questões polêmicas, como a espionagem do governo norte-americano e a discussão sobre o controle do porte de armas. Escancarou as conspirações e o jogo midiático da política, principalmente em torno da imagem da família tradicional, retratou as contradições do sistema jurídico e revolucionou a representação desfigurada das mulheres na mídia.

O último episódio deixou a história em aberto. Seus criadores, Robert e Michelle King, cumpriram a promessa de um final com um paralelo ao começo. Por consequência das constantes atitudes controversas da protagonista, há uma sensação de que tudo terá que ser reconstruído (de novo). O papel de boa esposa, já ressignificado para algo puramente imagético, talvez tenha que ser reinventado mais uma vez. Mas já sabemos que Alicia é capaz disso.

No Brasil, The Good Wife é transmitida pelo canal Universal e a última temporada ainda não tem previsão para ser exibida. Para os que já sentem saudades, uma boa notícia: nesta semana foi divulgada a possibilidade de um spin-off da série.

Por: Camilla Pacheco

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