É muito comum ouvirmos falar da postura tendenciosa, da manipulação de notícias e deste ou daquele posicionamento político nos telejornais. Mas pouco se fala dessa mesma postura na ficção, sobretudo nas telenovelas quando aborda a política através de seus personagens.

Analisando apenas casos recentes, mais especificamente as novelas A Regra do Jogo e Velho Chico, já podemos perceber o quanto a “ingênua” ficção preocupa-se com muito mais do que com o simples entretenimento. Na verdade, é um mecanismo de divulgação e fixação das ideias do autor, da classe a que pertence e, obviamente, da emissora para que ele trabalha.

Na novela A Regra do Jogo, a personagem de Alexandre Nero, representa um político de esquerda, estereotipado, que divide sua rotina entre a instituição social de recuperação de ex-detentos que mantém e a vida luxuosa em uma cobertura mantida por ligações com uma facção criminosa. A intenção de desqualificar a esquerda se mostra nas inúmeras vezes em que a personagem Atena se dirige a ele através de expressões como “comunista rico”, ou “companheiro da facção”, em que não passa despercebido a comparação intrínseca entre a ficção e a corrupção do governo do PT, em pauta na mídia. A intenção, nesse caso, não fica apenas nos diálogos, o visual também é muito cuidado para transmitir a ideologia proposta. As camisetas com palavras de ordem, o enquadramento da personagem ao lado da figura de Che Guevara contribui para demonizar a esquerda.

Em O Velho Chico, desde os primeiros capítulos, é apresentada a existência do coronelismo político, dos donos de terras que colocam seus representantes no poder, e da subserviência desses políticos a esses “coronéis”. A forma como esse poder é passado de geração a geração e os interesses dessas famílias se sobrepondo às necessidades do povo. Essa prática está tão presente na ficção quanto na realidade há anos, como podemos confirmar na sessão da câmara dos deputados que decidiu aceitar o processo de impeachment da presidenta Dilma. Embora os “coronéis” atuais não sejam apenas fazendeiros, mas donos de indústrias, de redes hospitalares, empresas de transportes, estendendo seus lastros de poder desde as pequenas cidadelas até a capital do país.

O uso da dramaturgia, principalmente na Rede Globo, para para perpetuar práticas políticas que preterem os verdadeiros interesses do povo é tão antigo quanto os vícios que ela expõe. Na década de setenta, em O Bem Amado, já víamos essa postura que se mantém até os dias de hoje. Ao mostrar tais práticas sem propor nenhum tipo de reflexão, nada mais faz do que banalizá-las aos olhos do telespectador.

Como as telenovelas alcançam quase que a totalidade dos lares brasileiros, e boa parte da população não possui o hábito de ler jornais, nem mesmo assistir aos noticiários, recebem através da ficção modelos que vão se acostumando a tomar como certos, que são incutidos em seu acervo cultural como a ideologia vigente.

Por: Charles Soares

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