Evento aclamado por fãs se propõe a comemorar a negritude, mas público branco é alvo de críticas.

“Negritude, suor, empoderamento e representatividade negra, black power, crespo, baianidade. Festa de preto”. Como diz a própria descrição do evento, a festa Batekoo se propõe a comemorar ritmos negros e enaltecer o empoderamento racial. O público alvo da festa são jovens negros que buscam se reconectar com suas raízes. Com 2,8 mil confirmados só na segunda edição do evento no Rio de Janeiro, a festa que chegou em terras cariocas em abril já divide opiniões.

A estudante de comunicação Letícia Nunes, de 22 anos, ressalta a importância de eventos assim por darem a oportunidade de “se juntar com os seus”. “É uma festa onde a gente se reconhece nas pessoas, onde somos maioria e não somos considerados os exóticos, ‘os diferentes’. É muito mais confortável e empoderador o ambiente”.

Muitas pessoas demonstraram seu amor pela festa no mural do evento no Facebook. A jornalista Marina Líbano, de 25 anos, que foi às duas edições, afirma que essa foi a melhor festa que já foi na vida. “As músicas são maravilhosas, as pessoas mais ainda. Ali tá todo mundo pra dançar e se divertir. Você não vê confusão ou pessoas idiotas chegando em você. Tudo é muito respeitoso, sabe? Sem contar que é uma das melhores festas negras aqui do Rio e enche bastante, exatamente por ser de uma modalidade diferente”.

“As pessoas não segregam ninguém. Falo isso porque nas duas edições eu dancei em várias rodinhas. Ninguém me olhou torto”, lembra o aluno de publicidade  Kaio Klinsman. Apesar do sucesso, a festa também recebeu várias críticas negativas. “A primeira edição foi muito mais black, com muito discurso de empoderamento. Na segunda tocou Demi Lovato, Taylor Swift e Bang [da cantora Anitta]…. Então sabemos q deu uma clareada”. Alguns comentários no evento diziam também que quando “Sorry” do Justin Bieber começou a tocar, muitas pessoas vaiaram.

A presença de mais pessoas brancas não incomodou a todos. Letícia reconhece que a diversificação no público ocorreu por uma questão de repercussão. “Nessa ultima edição acho que a festa popularizou, daí veio mais gente. Inclusive branca. Só que negros ainda eram uma maioria esmagadora, então nem me importei”. Já para a estudante de moda  Ana Paula Paiva, de 21 anos, não é uma questão de presença, mas de comportamento. “A festa é de preto pra preto, não significa que pessoas brancas não possam ir. O lance é que branco não pode ser protagonista numa festa com temática que não lhes cabe”.

Para o professor de dança Victor Cantuaria, de 20 anos, o problema vai muito além da edição da festa. Ele concorda que todas as minorias são oprimidas por ideias eurocêntricos, machistas e homofóbicos, mas cada minoria tem seu espaço para se empoderar. “A festa era negra para quem fosse negro de qualquer orientação ou posicionamento mostrar uns para os outros questões que se repetem. Aquele era um ambiente para retratar a realidade do negro que, em massa, é marginalizado. É um povo que em origem era rico culturalmente e costumeiramente usava adereços, pinturas, tranças, batiam seu koo [referência à dança e ao nome da festa] e pensar nessa ancestralidade cultural nos dá força para continuar resistindo”.

Por: Cecilia Boechat

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