Por Wesley Prado

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Certa vez estava na praça da Cantareira, Niterói. Não tenho certeza, mas aposto todas a minhas fichas, que não são muitas, que era uma quinta à noite. Esse é o dia que a província de Niterói se agita. É gente pra todo lado, há inclusive, quem venha de outras cidades só para jogar conversa fora. Um amigo e eu discutíamos sobre conspirações secretas e profetizávamos sobre a reorganização da nova ordem mundial que se configurava atualmente; um baita tema pra se conversar bêbado. Lá pras tantas, não sei como, ou talvez eu saiba e não lembre, entramos numa de fingir que estávamos sendo observados. Olhávamos para todos os lados em busca de câmeras e possíveis pontos de escuta que pudessem comprometer nossa vida. Sempre que passava alguém a gente desconversava. “Pô, rapaz, agora além de estudante, sou funcionário da UFF”, disse ele. Pronto já passou. “Aquele ali, com certeza era agente da CIA, ele falava inglês e tudo, cara.”

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Numa dessas de encobrir nossas conversas distópicas, ele soltou: “Porra, cê sabia que temos um acelerador de partículas aqui na universidade, cara?”  Ele só podia tá brincando, isso é coisa de suíço. “Sério, como assim?”. Acontece que a universidade deixou de ser universalista pra ser tornar algo muito mais segmentado. Talvez por isso eu não soubesse. Mesmo com a luta diária pelo todo, acabamos presos na parte. “Verdade, tá funcionando na UFF há uns 2 anos já, lá na praia vermelha, na física”.

Aos poucos a conversa se acalorou e ficou mais interessante. Porra, por que diabos abandonamos a praça e a rua e fomos pro isolamento da universidade?, divaguei.

– E qual é o tamanho dele?

– Ah, uma sala não muito grande.

– E ele faz o que?

– Eu ajudei a equipe a monte e tal. Ele basicamente faz datação, ou seja, trabalha encontrando datas para as amostras. Por exemplo, se você quer encontrar a idade de um fóssil, você pode. Com a análise dos carbonos 12, 13 e 14 é possível datar, numa margem de erro muitas vezes inferior a 1%, a idade do objeto.

– E por que esses carbonos?

– Porque são elementos presentes em todo material orgânico, a relação entre os três tipos nos permite datá-los.

– e como o acelerador atua exatamente?

– Ele oferece a energia necessária para quebrar partículas, no caso, separar as moléculas de carbono 14 de outros componentes, como o carbono 12 e 13. Esses carbonos 12 e 13 são estáveis e portanto não sofreram variação ao longo do tempo, ao contrário do carbono 14, que é instável e pode ter sido modificado. Depois da separação, a razão entre o carbono 14 e o carbono 12 ou 13 permite encontrar a idade da amostra.

– Imagino que isso permite um trabalho interdisciplinar, né?

– Sim, sim. O Paulo Gomes, coordenador da equipe que trouxe o AMS, como é chamado, conta que tem trabalhado com o pessoal da Arqueologia, Biologia Marinha e Geologia de várias universidade do Brasil e da América latina. Aliás, esse é o primeiro acelerador do tipo instalado na América Latina.

-Sério, cara. E quanto custou? Assim, entendo que é um equipamento importante para o desenvolvimento de estudos e tal, mas imagino que tenha sido um valor alto para a universidade, ainda mais em tempos de obras atrasadas, como é o caso do IACS, que já deveria ter sido entregue desde 2011.

– Pô, custou cerca de 1,5 milhão de dólares e foi pago por meio de edital financiado pelo governo federal. Chama FINEP, que é uma empresa vinculada ao Ministério de Ciência e Tecnologia. Se bem lembro em 2009, que foi o ano que o AMS conseguiu recurso, a UFF ganhou mais de 8 bilhões pra financiar projetos. Esse investimento não estava ligado ao REUNI, foi outra coisa.

– Acabou a cerveja. Mais uma?

Depois disso, ficou tudo meio vago na cabeça, mas é certo que conversa tomou outros rumos e esse negócio de acelerador foi algo meio vago só pra cobrir o silêncio enquanto o espião yankee passava.

Uns tantos meses depois, perdida nos labirintos da memória, eu lembrei da existência dessa conversa. Fiquei pensando se o que ele me falou era realmente verdade ou se tinha sido só conversa de boteco mesmo. Não fiquei surpreso quando descobri que sim, era verdade. Fiz uma visita ao laboratório e conversei com o Paulo, que reiterou a existência do equipamento chamado Espectrometria  de Massa com Aceleradores e detalhou tudo que conversamos naquela noite de intensos disparates mentais.

É, a praça pública é mesmo uma grande escola.

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