Por Wesley Prado

“Os amigos e os autores não lotariam um estádio, mas quase.*

Cheguei em casa sob chuva forte, essa corrente tropical que marca todo fim do verão carioca. O tumulto do dia me inquietara de forma intrigante. Não soube bem o porque até minutos antes de dormir, naquele instante que o tudo e o nada se embaralham na nossa cabeça. Fiquei pensando o que o tinha levado até lá. “A cada dia nasce uma história.” “Para que serve a utopia? para caminhar…” “Não viajo para chegar, viajo para ir”. Como foi difícil pregar os olhos nessa noite.

Aquele rosto flácido revelava um cansaço de 73 anos de coração a mil; seus gestos lentos, como se pensado para poupar energia, lhe concediam um status de sábio grego. De sábio latino-americano, melhor dizendo. Enquanto esperava sua hora de falar, razão que o levara até ali, observava atentamente um público maior que seus olhos esperavam ver.

Aquele velhinho de passos lentos e comedidos era Eduardo Galeano. O escritor uruguaio veio ao Brasil para a 2ª Bienal Brasil do Livro e da Leitura, que aconteceu em Brasília entre os dias 11 e 21 de abril. Segundo divulgado pela LP&M, editora que publicou seus livros no Brasil e ajudou a organizar o evento, ele queria fazer um encontro no Rio de Janeiro para ler trechos dos seu último livro: “Os filhos dos dias”, lançado em agosto de 2012 no Brasil. Mas ninguém se locomove tanto a esta altura da vida só para ler. Um ato quase nunca é, apenas por ser.

Foto por Rebeca Letieri
Foto por Rebeca Letieri

O encontro estava marcado para às 19h no auditório do Rio Data Centro (RDC) da PUC-Rio e tinha a capacidade para 150 pessoas. Chegamos, uns amigos e eu, uma hora antes do início e, como esperado, fomos recebidos por uma fila desanimadora. Havia mais gente do lado de fora que dentro. Não pareceu ter sido novidade para os organizadores, que afirmaram estarem surpresos com a grande massa que se formou pelos corredores. Em pouco tempo, a impaciência venceu a vigília. E digo vigília porque tinha gente na fila desde às 14h, numa espera quase religiosa. Uma amiga contou que chegou às 15h e pegou o número 104 para entrar.

“O que esperavam? Trazer o Galeano e não ter ninguém?” contou o rapaz de rosto fino e barba por fazer. Seu comentário era um dos tantos que vagavam pela fila, sua voz tornava-se outra, e outras, de diferentes timbres e alturas. “Tem que ser pra todo mundo, vamos pro ginásio”, entoou a morena de óculos e estudante da UERJ. Aos poucos, os protestos isolados foram tomando corpo e mobilizando mais gente, a ponto de quase entrarem no local do encontro, bem no ritmo das ocupações mundiais de 2011. Até que veio Leonardo e outros seguranças do patrimônio. Num primeiro instante, calmo, mas logo exaltado, Leo repetia que só estava fazendo seu trabalho.”Tá cheio gente, realmente não cabe mais ninguém!”. Pensou pequeno o Leo. A insistência e o barulho culminaram na mudança de planos. De dentro, ouvia-se quaser um presságio do apocalipse. “Pelo barulho que se ouvia lá de dentro parecia um eminente ataque de ORCS (personagem mítico)”, brincou outro amigo que conseguiu entrar. Como em todo bom protesto, o alvo posterga sua redenção até quando pode. Se antes inexistia outro espaço que suportasse tanta gente, a pressão da maioria sem acesso conseguiu que o evento fosse transferido para o ginásio esportivo que, como se comprovaria depois, logrou em suportar a todos (mais de mil segundo um cálculo rápido). Uma verdadeira alegoria da condição humana: temos um espaço-mundo que suportaria a todos de forma igualitária, mas que por força dos 1%, não conseguimos alcançar o “ginásio”.

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Foto por Wesley Prado

Soube que Galeano já estava nas redondezas enquanto tudo isso acontecia. Testemunhas, como todas que constroem histórias, afirmaram que ele quase deu meia volta e desistiu da sua habilidade comprovada de “cuentacuentos”. Gabriel Díaz, amigo de vinte anos do autor, estava presente e contou que Galeano parecia preferir um evento pequeno, mais intimo, por sua saúde debilitada, de quem enfrentou um recente câncer de pulmão. Por isso quase voltou atrás ao ver a confusão que havia se instaurado.

Em voz calma, num português com forte acento castelhano, Galeano leu alguns contos que elegeu dos 366 presentes em seu último livro. Boa parte deles relacionavam-se com o Brasil: relembraram e revelaram histórias sobre personagens como Noel Rosa no conto “Enquanto a noite durar”, o nordeste árido brasileiro, em “Os sóis que a noite esconde” e o inesquecível caso da proibição do beijo em Sorocaba, São Paulo, no conto “A Beijação Total”.

Futebolista frustrado, jornalista por acidente, escritor de verdades esquecidas, cidadão político, defensor ferrenho da americalatinidade, Galeano fez questão de viver a história enquanto ela passava, velha e torta, num trem tão enferrujado que surpreende ainda estar de pé. Durante a ditadura, foi preso no Uruguai, exilado na Argentina e na Espanha, bem no início das ditaduras latinas. Em 1985 a redemocratização do seu país  trouxe-o de volta. Em 2004, para celebrar a vitória de Tabaré Vázquez e da Frente Ampla – e o primeiro governo mais a esquerda no país- escreveu o artigo “Onde as pessoas votaram contra o medo”, onde afirmou que finalmente seu povo votou com bom-senso. Em 2006, ao lado de Gabriel Garcia Marquez, Mario Benedetti e tantos outros, participou do levante popular que buscava a soberania de Porto Rico frente ao longo período de dependência aos Estado Unidos, o mesmo país que prega liberdade e democracia para o mundo. Em 2009, no célebre encontro entre Hugo Chávez e Barack Obama, Chávez fez ressoar as palavras da obra mais conhecida do escritor. “As Veias Abertas da America Latina” foi entregue ao presidente dos EUA, numa notável crítica a uma da nações que mais maltrataram a parte centro-sul do continente americano (e a boa parte do mundo, diga-se).

Tem vivido uma vida de luta, em pensamento e ação, sempre atento ao seu redor, principalmente ao seu grande e amado povo latino americano. Com palavras, escritas e faladas, exalta a “belleza de las cosas chiquitas” e propõe análises para um mundo repleto de contradições. Em entrevista ao jornalista Emir Sader , no ano passado, Galeano disse acreditar que vivemos a ditadura do medo, que volta e meia revela sua face mais cruel de dominação. À época, Evo Morales teve pedido de pouso emergencial negado pela França e Portugal sob suspeita que o índio boliviano estaria transportando Edward Snowden. O que mais tarde confirmariam ser mentira. Mas não a vontade de transportá-lo. Numa conferência sobre energia na Rússia, Evo afirmou que concederia asilo ao Snowden caso ele pedisse. Para a infelicidade de muitos, Evo conseguiu pousar no Áustria. E Galeano confirmou sua hipótese: o exercício de dominação ainda se exerce pelo medo.

Galeano conta o que vive, busca no horizonte a utopia que nunca alcança. A figura do contador de história está presente em boa parte da história humana, geralmente na imagem de um ancião: o velho narrador de mundos desconhecidos. Esses narradores da experiência humana faziam previsões, profetizavam devires, davam significados ao que não conheciam. Sua presença amenizava a dureza do viver, iluminava a escuridão de noites sem lua. Quanto mais desconhecido era o mundo, maior era a necessidade de significar, de colocar-se no espaço e no tempo.

Na mitologia greco-romana, os Bardos eram os responsáveis pela transmissão de histórias entre os viventes, perpetuavam lendas e poemas versados em música. Na tribo dos Kalapalos, a primeira a ser contatada pelos irmãos Villas Boas no Alto Xingu, como muitas tribos originárias, mantém sua tradição viva através da oralidade, com o simples interesse de perpetuar conhecimento. “Não raro, um jovem que esteja passando pelo rito pubertário pede a um parente que venha contá-los na sua cela de reclusão após todos terem se recolhido para dormir. O narrador, então, faz-lhe relatos elaborados, que lhe motivam sonhos, muito importantes para quem está nessa etapa da vida.” conta Julio Cezar Melatti em seu livro “Índios do Brasil”. São as histórias que nos distraem enquanto a vida se desenrola. São as mensagem desses nobres contadores que mantém nossos sonhos vivos e livres.

Fechei os olhos naquela noite pensando nisso. Era tanta gente que quase daria para lotar um estádio, tanta memória a ser produzida e preservada, e todos ligados pelo fino tecido da História. Esse encontro com Galeano foi só mais uma prova que cada vez mais precisamos que histórias continuem sendo contadas e sempre relembradas. Estamos tão perdidos quanto antes, numa constante e eterna puberdade. Daqui a alguns anos, olhando pra trás, veremos que essa foi só mais uma entre tantas histórias, que se deixadas de lado, serão esquecidas pelo caminho. Produzimos memória a todo o tempo, e Galeano, com sua aguda sensibilidade, nos lembra que é preciso renegar o esquecimento, elevar o oprimido e transpassar a razão.

Ele estava certo: somos mesmo feitos de história.

 

 

 

*Agradecimento em “Os filhos dos dias”. Eduardo Galeano

 

MELATTI, J. C. Índios do Brasil, São Paulo, editora USP, 2007.

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