Por Filipe Galvão

 

junkie_us_ace_1953_frontA mina só tem duas fotos. A primeira é de um barranco. Uma casa – toda desmilinguida – engolida por um rombo na terra.  E o ângulo da foto dá a impressão da casa estar sempre caindo, fazendo escombro de escombro. Mas digo “mina” por vício de linguagem porque tudo indica, pela segunda foto, a do bolo com o escudo do São Paulo Futebol Clube – glacê vermelho, glacê preto, glacê branco, glacê, glacê! – que deve ser uma tia qualquer. Uma tia qualquer que eu seguramente não vi, não comi e nem ouvi falar. E mesmo assim os bonequinhos em plano médio, ao lado dos balões  e de globo terrestre, mostravam que outro desconhecido tinha me achado.

Fiquei 2013 num entra e sai sem-vergonha do facebook. Volta e meia, quando eu desativava a minha conta e ficava uns tempos redescobrindo o mundo imediato, ouvia de uns amigos qualquer coisa como: porra, queria ter coragem de apagar tudo. Porque o facebook é essa coisa meio gonzaguiana: quem tá fora quer entrar mas quem tá dentro não sai. Não sai porque a angústia de estar fora parece ser maior que a angústia de estar dentro. E esse lance de desativar, bem me disse um amigo, é frescura pura. Por isso no começo desse ano resolvi que o caminho era mesmo barbarizar. Precisava sumir com tudo que era foto, tudo que era texto, tudo que era contato feito na movimentação dos últimos anos – Juiz de Fora, Niterói, Diamantina, Córdoba, Porto Alegre, Uspallata, Rio de Janeiro, Santiago, Belo Horizonte, Buenos Aires. Tudo. Precisava permitir a mim e a meus amigos o desaparecimento no mapa mundi, tacar fogo na minha memória virtual e na minha composição enquanto sujeito midiatizado. Assim, depois de só conseguir saber pelo google como excluir definitivamente minha conta no facebook e esperar por 14 dias, eu me vi livre do Zuckeberg.

Em 1971 a revista científica gringa Journal of Clinical Psychology publicou um estudo mostrando que quase dois terços dos usuários de heroína, álcool e tabaco tinha uma recaída nos três primeiros meses. Não me estranha que hoje eu esteja aqui tentando descobrir quem diabos é essa senhora que me solicitou amizade. Fiquei três meses limpo. Três meses retomando a estranha prática de trocar e-mails. Mais ou menos do jeito que eu trocava cartas com Hanna, uma gatinha que tentava pegar quando era moleque. Não que eu só tenha trocado cartas com a Hanninha, acontece que ela foi a única com quem o lance das cartas não deu certo. Com as outras, por sorte, eu peguei ou fui pego. Mas foi com a Hanna que usei esse canal de comunicação devidamente. Com ela, algumas namoradas, alguns amigos. Acho que honraria a ração de um pombo-correio com algumas dessas cartas. Esse tipo de comunicação mantém urgente e evidente a necessidade de artesanear o contato, trabalhar conteúdo e forma. Afinal de contas uma carta (um e-mail) tem um tempo próprio. Um tempo de aproximação, de maturação, de sinceridade mediada por um selo ou um send. E – ponto nevrálgico da minha escolha – nessa via, tirando a NSA, só sabe o que tá escrito quem manda e quem recebe.

Nesses três meses mantive contato com oito pessoas. Oito pessoas. Eu conto, é claro, aquelas com quem a comunicação era midiatizada, porque com o resto do mundo as coisas se tornaram bem mais palpáveis. Conheci gente que não lembro o nome, mas os olhos, ou o cheiro ou do jeito de abraçar. Pessoas que nunca mais vi – mas há sempre um bar ou amigos em comum. Nada me incomodou. Pelo contrário, me senti até bastante aliviado pela vidinha humana de ir à padaria, encontrar desconhecidos ao acaso, procurar os amigos distantes só quando a saudade ou a vontade de tomar umas era urgente, molhar as plantas. Solidão é costume.

32cd06bf18e3bf957713ff27ee81a59e

Três meses limpo. A teoria mais aceita sobre o funcionamento cerebralde um viciado põe a culpa na dopamina. O mecanismo do vício funciona mais ou menos assim: quando você se sente recompensado o cérebro libera a dopamina, uma espécie de neurotrasmissor-porteiro que decide o que agrada ou não. É esse juiz do prazer que vicia. Se seu cérebro resolver liberar dopamina sempre que você come um miojo ou ouve Luan Santana isso pode acabar em vício. Ela é responsável por basicamente tudo no seu corpo – movimento, memória, aprendizagem, humor, sono, cognição, sistema de recompensa e mais – e quando liberada proporciona uma onda de aproximadamente 10 minutos. Acontece que poucas coisas colam tão bem recompensa e urgência quanto um cigarro, uma birita e, imagino eu, um pico. E no meio dessas poucas coisas surgiram as mídias sociais. Receber uma curtida, ser bajulado, ganhar uma cutucada libera dopamina tão rapidamente quanto esse beque que você fuma escondido dos seus pais. Facebook , Twitter, Orkut, ICQ, mIrc são, digamos, precursores de dopamina.

O lance é tão sério que 1/4 das pessoas que procuram ajuda no Instituo de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da USP são viciados nas tais mídias. O público-alvo daqueles sítios pros lados da serra fluminense onde a galera paga uns dois mil reais pra se limpar só aumenta. Pelas comparações que psicólogos fazem entre narcóticos e facebook dá até pra imaginar crackudos, meth heads, alcoólatras e blogueiros dividindo um café enquanto repetem o mantra: só por hoje, só por hoje, só por hoje. Termos bizarros como ciberviciado e Índice de Massa Virtual surgiram pra tentar acompanhar o gráu de influência dos impérios internéticos. Pesquisando o submundo dos viciados na web descobri que sofro de blog-indiscrição, chicletepod, cibercondria e wikipediamania. Mas do facebook, quem diria, eu estava curado. Fiz alguns testes e meu resultado – 8 pontos em 36 possíveis – mostrou que meu tempo limpo realmente deu algum resultado. Ainda assim: por que diabos eu voltei pra isso?

Acho o facebook um pé, um chute, um tiro no saco. Acho chato mesmo. A quantidade absurda de notícias falsas e deturpadas, o acumulo de gente desconhecida e metida a juiz, a disputa egóica e inócua entre postagens, os comentários de ódio, as discussões rasas, as tempestades em copo d’água e ameaças e perseguições e vexames e escrachos. É mesmo uma droga. Mas dessas drogas vagabundas que te dão uma onda rápida, te vicíam e te fazem caçar mais e mais likes pra manter os níveis de dopamina estaveis. E apesar de tudo eu voltei. Voltei do mesmo jeito que volto pro cigarro quando paro. Do mesmo jeito que um domingo sem cerveja é um domingo mais triste. Do mesmo jeito que não consigo ficar sem música, sem sol, sem sexo. E por que não? Viver é vício, do facebook ao poker, da balinha de canela aos albuns de família. Só não tente me adicionar com uma foto de um barraco e um bolo do são paulo porque não vai rolar. Mas curtir o texto pode.

 

 

Anúncios