Por Wesley Prado

Foto do site oficial
Foto do site oficial

Historicamente, o exercício autoritário de controle tem provado  ser insustentável nas sociedades complexas. Essa lógica da posse sobre o direito do outro já oprimiu, matou e desregulou comunidades inteiras. Vide a história recente (o nazismo e as diversas faces do fascismo, os ditadores na África e Oriente Médio etc). Isso porque ninguém em absoluto admite submissão que dure mais que o tempo do prazer. A liberdade, enquanto direito humano, deve ser visto como potencial a ser expandido não só no tempo, mas no espaço.

Numa sociedade cada vez mais eficiente em desenvolver dispositivos de controle (escola, igreja, prisão, família) nasce o “Couchsurfing”, um ousado projeto que cria uma comunidade global de viajantes. Bem mais que uma rede mundial de indivíduos hiperconectados, o CS se propôs ir além de frios contatos virtuais. Foi criado em 2004 com a missão de facilitar a troca experiências, estimular a diversidade e a tolerância entre seus usuários. Basicamente, os usuários cadastrados oferecem gratuitamente suas casas para outros que nunca viram na vida ou para “amigos ainda não conhecidos”, como dizem os criadores.

Julen Carrington é um madrilenho com larga experiência no projeto. Em quatro anos, já hospedou mais de 120 pessoas em seu apartamento no centro de Madrid. “É uma forma mostrar a cidade da maneira como um espanhol conhece e também ajudá-los em tudo que necessitem. Eu gosto de ajudar.” Cada usuário se encontra de um jeito diferente no projeto, o que não impede que muitos pensem o mesmo. Valentin Cartillier, australiano de primeira viagem, criou sua conta há apenas um mês e pretende começar a usar quando visitar a França e o Reino Unido, entre abril e maio desse ano. “O que busco é viver as cidades da maneira como o local vive, e não como um turista sem ideia nenhuma”, contou.

Para o belga Bjorn Lemmens, a convivência multicultural fez com que sua percepção de mundo mudasse a cada nova experiência. Ele conta que começou a defender a bandeira LGBT com mais intensidade após hospedar um casal gay Ukraniano e conhecer mais sobre a falta de direitos e perseguição que existe na Ukrania. E além disso, contou animado, “foi por meio do CS que conheci meu atual namorado”.

Utopia juvenil, sonho de liberdade, rompimento (ainda que) ilusório com dispositivos de controle? Talvez. O que os criadores do projeto fizeram tem modificado a forma como viajantes de todo o mundo se relacionam, e mais, mostraram que seres humanos ainda podem ultrapassar o limite do indivíduo e atuarem no religamento, na reconexão com a coletividade.  “Descobri que somos muito pequenos e ainda há gente boa no mundo”, disse Julen. A comunidade do CS conta hoje com 7 milhões de pessoas, espalhados por 100 mil cidades em todo o mundo.

O que há de mais libertador no projeto nasce mesmo é no ato. Um projeto pensado para agregar o mundo enquanto unidade, que propõe romper fronteiras e desatar amarras em si já é libertador. Afirmo isso por experiência própria. Na minha última viagem, vivenciei casos que “hosts” (anfitriões) me ofereceram suas camas, enquanto eles mesmos dormiram no chão. Outros tantos que cuspiram na propriedade privada e me deram suas chaves para que eu pudesse sair e voltar quando quisesse. Nunca o dizer “a casa é sua” fez tanto sentido. Eu, que pra muitos seria um perfeito estranho fui tratado como um ilustre convidado. Sem falar dos simples gestos de generosidade, do ato de compartilhar comida, dividir conhecimento, dar atenção e ajuda. A liberdade pode às vezes vir através do outro, e não da gente.

Anúncios