Por Gabriel Vasconcelos

Quinta edição tem novo sucesso de público e concentra pontos altos na segunda semana. Boa música ainda resiste ao enxame de publicidade.

gabriel 2A quinta edição do Rock in Rio finalmente disse a que veio no último final de semana e subverteu o ditado: o que ficou foi a última impressão. Para boa parte do público e crítica, as grandes atrações dos últimos dias (Metallica, Bon Jovi, Bruce Springsteen e Iron Maden) provaram em definitivo o fôlego do projeto de Roberto Medina que, para muitos, havia perdido completamente a veia musical para dar lugar às grandes cifras de transmissão e patrocínio (leia mais).

Se por um lado a primeira parte do festival – que deu vez ao pop de Beyoncé e Justin Timberlake e ao mezzo-indie britânico do Muse – alimentou a falaciosa crítica da falta recente de rock por parte dos mais céticos (leia mais), por outro, se mostrou mais uma vez um sucesso de público e negócio. Coerente como na edição de 2011, a line-up concentrou estilos afins em um mesmo dia, o que evitou experiências ruins, como as de Lobão em (1991) e Carlinhos Brown (2001), hostilizados por platéias pouco afeitas aos seus estilos em anos anteriores. Mais que isso, o formato arrastou uma multidão segmentada, formada em sua maioria por pré-adolescentes e gays, que bombardearam as redes sociais e aderiram às ações de marketing  das mais de 70 marcas patrocinadoras. Com disposição invejável, este público garantiu o sucesso de atrações paralelas como a tirolesa, roda-gigante e montanha russa, que chegaram a ter filas de espera de seis horas.

Uma semana depois tudo mudou. A cidade do rock viu chegar um público mais velho que se dividiu entre o hard/country rock e o heavy metal. O consumo de cerveja deu uma guinada, mas, a despeito do que a imprensa ventilou dias antes, a demanda por brinquedos pouco diminuiu. A quinta feira (19) e o domingo (22) trouxeram o rock pesado, mas apurado de Metallica e Iron Maden, além da assustadora banda sueca Ghost B.C, cujo vocalista, fantasiado de anti-papa demoníaco, estampou a capa dos jornalões no dia seguinte (saiba mais). A sexta (20) abriu a curtíssima temporada de galãs de todas as idades: foi a vez dos 1990’s Match Box Twenty e Nickelback e do veterano Jon Bon Jovi, que fez lotar a grama sintética do espaço com seus fãs clubes. Desinteressadas por outras atrações, mulheres de meia idade – todas com a tradicional camiseta estampada com um punhal alado fincado no coração – já vibravam com simples chamadas no telão, enquanto aguardavam o cinquentão. No palco, porém, nada além do script. Desfalcado do guitarrista Richie Sambora, afastado por problemas pessoais, e do baterista Tico Torres, hospitalizado para operação na vesícula, Jon tocou com uma banda de improviso e fez um show longo, lotado de hits (veja o setlist). Mesmo com problemas no som, abafado sobretudo à esquerda da platéia, o show empolgou por quase duas horas.

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Ainda assim, o ponto alto do festival ficou a cargo de um coroa de idade ainda mais avançada: Bruce Springsteen e sua Street Band. Aos 64 anos, The Boss, como é chamado pelos fãs e pelos próprios integrantes da banda, é pouco conhecido por aqui e veio por vontade de Medina, tiete declarado de Springsteen. E valeu a pena. Eletrizante do início ao fim, o show foi único, sobretudo no que diz respeito à interação com a platéia. Em 2h40 de show (veja na íntegra), Bruce cantou Sociedade Alternativa de Raul Seixas em bom português, além de todas as músicas do album “Born in the USA” e, por vezes, foi para a galera, levando cinco fãs para o palco e entregando o microfone na mão de um garoto de 10 anos. A quebra de protocolo foi tamanha, que os tradicionais fogos de fim de noite, em geral acompanhados da música tema do festival, estouraram ainda durante o show, como se alertassem para o fim da noite. Em pensar que esta nem foi a noite mais inspirada de Bruce. No início do ano, o astro tocou por mais de quatro horas sem parar em Helsink, na Finlândia (leia aqui).

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