Por Bárbara Fernandes

claque
The Hank McCune Show

Imagine que você está em uma mesa de bar com seus amigos, conversando sobre um assunto qualquer, quando alguém do seu grupo solta um comentário ligeiramente engraçado. Uma perfeitamente normal. Agora, adicione a este cenário risadas que parecem vir do além, muitas vezes, seguidas de palmas e assobios. No mínimo estranho. Claro, que se isso realmente acontecesse na sua vida, seria muito aconselhável que você procurasse um psiquiatra, mas nos seriados de TV, isso é mais do que usual. As trilhas de risadas, mais conhecidas como claque, são utilizadas em diversas séries de comédia, as sitcons.

O termo claque, que em francês significa aplaudir, surgiu para se referir a uma equipe de profissionais contratados para aplaudir espetáculos em teatros e casas de óperas francesas. Com o rádio e a televisão, a tarefa continuava a mesma, só que em programas de auditório ou humorísticos. Em 1950, quando o engenheiro sonoro Charles Rolland Douglass trabalhava como diretor técnico de programas de televisão ao vivo, teve a ideia de desenvolver uma “máquina de risadas” para aumentar ou substituir a reação de uma audiência ao vivo. O primeiro programa a incorporá-la foi The Hank McCune Show (NBC). Assim surgiriam as risadas enlatadas, como são chamadas pelos críticos.

A ideia central é servir como um gatilho de resposta no telespectador, já que a crença é que risada atrai risada, sendo assim, a risada gravada seria um complemento para a reação natural às piadas. Para André Luiz Barros, jornalista e um iniciante nos mundos dos fanáticos por séries, o mecanismo de indução do riso funciona. “As risadas fazem parte das sitcons, por mais que a gente saiba que na maior parte das vezes é só áudio, não me incomoda. Até acho que cria uma identidade no programa, um exemplo claro é Chaves.”, comenta. Já Roberta Amazonas, estudante de jornalismo e viciada em séries, acredita que a trilha subestima o público, que segundo essa visão, precisa que algo o aponte o que é ou não uma piada.

Mas essa é uma opinião minoritária para aqueles que acompanham as comédias. Pedro Drumond, estudante de cinema, acha o sistema desnecessário. “Eu não gosto. Acho que boas piadas e gags funcionam independentemente das claques e o uso delas é chato e intrusivo. Existem as ‘piadas de claque’ (coisas realmente engraçadas que dependem das risadas) mas são uma parcela pequena que pra mim não justifica o uso. No geral sempre fica a impressão de que é uma tentativa de salvar um roteiro com 90% de piadas fracas incentivando o riso. E aí tem o risco, às vezes funciona e em outras só expõe ainda mais a fragilidade da piada e deixa tudo patético.”, afirma.

Algumas séries gravam em frente de uma audiência para que as risadas fiquem mais naturais e demonstrem a reação verdadeira do público, como The Big Bang Theory (CBS) ou Whitney (NBC). Igor Pinheiro, estudante de jornalismo e espectador assíduo de mais de 40 seriados, acha ser essa a grande sacada, já que concorda que esse tipo de claque deixa as séries mais divertidas, por dar a perspectiva de realidade. Apesar disso, Igor discorda com a trilha de risadas pré-gravada.

Séries ícones da comédia mundial utilizavam a trilha, como Friends (NBC), mas nos últimos anos, o uso da claque tem diminuído consideravelmente. Inclusive, séries livres do recurso são elogiadas por sua decisão, como Modern Family (ABC), queridinha e vencedora de três Emmy’s consecutivos. Aliás, o Emmy é um ótimo termômetro do que funciona, em 2000, dos cinco programas indicados ao prêmio, apenas um não utilizava risadas enlatadas. Atualmente, o cenário se reverteu, dos sete programas indicados em 2009, apenas How I Met Yor Mother (CBS) utiliza a trilha de risadas. Dá para perceber que o uso de claque está diminuindo, mas ainda é muito cedo para afirmar se terá um fim. Isso nós só saberemos com o passar das seasons, enquanto isso escolha a risada mais esdrúxula da gravação e se divirta.

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