Por Elisa Bastos Araujo

BBB-Big-Brother-Pedro-Bial1Mais uma vez, nos preparamos para a comédia da vida privada, cada vez menos privada enquanto questão individual, e mais privada na conotação de excremento. As histórias se repetem e confirmam a premissa de que “em time que ganha, não se mexe.”. Alguns incrementos às velhas fórmulas que deram certo recheiam a casa mais vigiada do Brasil. E como se não bastasse vermos as mesmas personagens em corpos diferentes (ou nem tanto), somos forçados a aturar mais 6 dos mais de 180 ex-BBBs, que recolhem dessa vida a arte de ganhar dinheiro por não ter profissão.

Nos tempos em que o público e o privado se confundem, trazendo uma sub-vida virtual como condição de existência, o Big Brother cada vez se torna mais ultrapassado. Mesmo assim continua angariando milhões e milhões com a ingenuidade dos brasileiros, afoitos pela transformação dos heróis comuns em subcelebridades. Além disso, existe a coabitação de dois tipos de mídia que praticamente redefinem a existência humana: só existo ou interajo se tenho minha vida exposta no facebook ou se apareço na televisão, seja do jeito que for.

É a mesma lógica que conduz a estética das telenovelas que, por mais que mudem o enredo, trazem a mesma linguagem imagética. E por mais que existam programas diferentes, como minisséries “inovadoras”, a lógica permanece a mesma, que perpassa agradar o público de qualquer forma e a qualquer custo. Tanto é a mesma lógica que programas assim passam tarde da noite, atingindo uma boa média de audiência esperada para o horário.

Sobre o programa Big Brother em si, não há o que dizer que já não tenha sido dito. As novidades tão aclamadas por Pedro Bial (personagem contraditório, que, enquanto odeia a sua exposição pelos paparazzis, ovaciona o que chama de “ágora da modernidade”), nada mais são do que o aumento da quantidade de pessoas na “casa de vidro” e de ex-brothers na casa. Agora é esperar a criatividade das provas subumanas que vêm por ai para ganhar a liderança, a imunidade, os passeios, etc.

A ideia de George Orwell sobre a vigilância do mundo se reduziu à futilidade. Não há reflexão sobre isso. Qualquer pessoa pode refletir e reverberar essa reflexão após longas e longas conversas quando não se tem nada para fazer. A diferença é que nas telas da Globo o alcance é cada vez maior. Mas este alcance também abarca besteiras, brincadeiras e bobagens (BBBs). Formula modelos de esvaziamento que são seguidos por todo o país. Bela ágora da modernidade!

A reflexão promovida por Orwell é representação do momento em que se inseriu e esse novo Big Brother nada mais é do que o mesmo. Lamentável que assim o seja. O contrário do que Orwell previu. As pessoas em 1984 aturavam a vigilância ditatorial, dissimulavam para sobreviver e que, se pudessem viver um milésimo da democracia de hoje, jamais escolheriam se expor a rótulos em um programa de televisão.

O Big Brother ressignificou a si mesmo enquanto símbolo e esvaziou o pensamento em torno do termo, isso é fato. As justificativas em torno da defesa do programa são, no mínimo, risíveis. Sobre a “ágora da modernidade”, nos lamentamos por viver nesse período. Sobre estudos antropológicos, nos lamentamos por termos que nos submeter a isso para sermos estudados. O Big Brother é puro entretenimento de cunho alienante, pois não lhe é interessante uma verdadeira ágora moderna.

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