Por Elisa Bastos Araujo

Infelizmente mais uma tragédia acontece no Brasil, e do tipo mais adorado pela mídia: tragédias anunciadas. Parece mesmo ser como o personagem de Miguel Falabella em sua nova série de horrores: a sua tristeza, “infelizmente”, é a minha alegria.

A forma de conduzir as coisas, através de um método cruel disfarçado de condescendente, nos faz sentir o que naturalmente já sentimos: tristeza, indignação, piedade. Mas o sensacionalismo faz mais, traz as mães desesperadas para a frente das câmeras para dizerem pro Brasil o quanto estão sofrendo. As perguntas infelizes e previsíveis recheiam a tela: como você se sente? Esperam que digam: feliz? A indignação é geral, o sentimento de que poderia acontecer com qualquer um de nós também, não precisamos de falsos subterfúgios para enveredar por este caminho.

A mania de encontrar e pré-determinar culpados, estabelecidos por juízos de valor do senso comum, orienta as perguntas às autoridades e aos porta-vozes oficiais dos desdobramentos: os especialistas. E assim cometem injustiças a pretexto de que estão punindo. A prisão preventiva é um exemplo de como a mídia quer criar a falsa ideia de que só se faz justiça quando alguém vai pra cadeia, e logo. Os erros são descobertos nas mínimas palavras, nos gestos, nas interrupções, como um interrogatório coletivo.

A justiça está nos mínimos atos, desde aqueles em que se predispõe a inocência e não a culpa. A natureza da justiça está na investigação e não na ânsia desenfreada por alguém atrás das grades. Até porque depois se pode gerar um desdobramento excelente para os moldes do Fantástico: homem fica 10 anos preso inocentemente.

Os desdobramentos são muitos, desde entrevistar o vendedor da loja de fogos de artifício, que certamente recomendou o produtor da banda a não comprar os fogos impróprios, ao fabricante do produto, explicando que aquele tipo era inadequado para ambientes fechados. A partir daí, se reproduz a falsa ideia de que todos podem ser especialistas, com informações superficiais, e acabam por modular um novo senso comum. Os estereótipos são reproduzidos nas ruas: claro que a culpa é do dono da boate; mas a prefeitura não fiscalizou; o corpo de bombeiros não concedeu um novo alvará por não realizar uma nova vistoria; é óbvio que é necessário uma saída de emergência além da porta de entrada; e por aí vai.

A mídia não é o órgão responsável pela punição. É lógico que a indignação existe e nenhum indivíduo é passível de ser isento a ela, inclusive os integrantes dos meios de comunicação, mas para tudo há limite. Não há como exigir que o repórter não se emocione, ou que ele não sinta as palavras de quem está entrevistando, mas é preciso entender que o momento é de sofrimento e que remoer as dores de quem sofre é apenas uma estratégia de marketing cruel e desumana. É uma invasão num momento muito delicado.

santamaria

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